O FEST teve a honra de abrir a edição de 2025 com o filme Happy Holidays, de Scandar Copti, bem como de acolher duas masterclasses com o realizador. A primeira decorreu a 23 de junho e centrou-se no método de Copti para trabalhar com não-atores, enquanto a segunda, a 24 de junho, explorou exercícios práticos que o realizador utiliza para treinar não-atores a responder de forma autêntica e honesta durante as filmagens.
Os filmes de Copti têm sido reconhecidos em festivais e prémios por todo o mundo, incluindo uma nomeação para os Óscares, o Prémio Ophir de Melhor Filme e uma Menção Especial da Caméra d’Or, em Cannes, pelo seu primeiro longa-metragem, Ajami (2009). O seu trabalho distingue-se pelo realismo, de estilo documental, e pelo uso de atores não profissionais — uma abordagem que o realizador diz ter sido inspirada pela sua grande admiração por Ken Loach e, em particular, pelo filme Kes (1969). O dilema filosófico conhecido como o “paradoxo da ficção” é uma questão central que aborda nos seus filmes, ao treinar não-atores para reagirem a situações como se fossem reais. Como mencionou na masterclass, Copti tenta incorporar o máximo de “realidade” possível para tornar os seus filmes o mais próximos do real.
A obra de Copti mergulha profundamente nas dinâmicas do quotidiano palestiniano. O seu mais recente filme, Happy Holidays (vencedor do Prémio Orizzonti na 81.ª edição do Festival de Cinema de Veneza), acompanha várias histórias de membros de duas famílias, uma palestiniana e outra judaica, que vivem na cidade de Haifa. A tensão do filme constrói-se à medida que os valores das personagens colidem e forças externas moldam as vidas que lhes são permitidas viver.
Na sessão de Perguntas e Respostas após a exibição de Happy Holidays, Copti revelou que a ideia da história nasceu de um oxímoro. Ao ouvir uma parente sua dizer ao filho “nunca deixes que uma mulher te diga o que fazer”, Copti começou a refletir sobre a opressão. Neste sentido, refletiu sobre a forma como a opressão se constrói, tanto a nível externo como interno, e como as pessoas que sofrem acabam, muitas vezes, por reproduzi-la.
Ao olhar para trás, Copti tenta compreender essas várias camadas de opressão. Algumas são impostas de fora, enquanto outras são perpetuadas pelas próprias personagens através dos seus preconceitos e crenças. O resultado é uma visão profundamente complexa das dinâmicas relacionais no contexto específico da sociedade israelita.
Para além de realizador, Copti também escreve e monta os seus filmes — uma combinação de funções que, segundo o que explicou na masterclass, exige uma logística bastante complexa. Mas é precisamente esse envolvimento total nos seus projetos que lhe permite alcançar um grau tão elevado de realismo nas suas cenas.
O realizador descreve a sua carreira como processo demorado. Recordando as suas próprias experiências de insucesso enquanto jovem ator, Copti rejeita abertamente a hierarquia tradicional entre realizador e ator, bem como os métodos de casting convencionais. Em vez disso, conduz workshops com grupos de pessoas que correspondem ao perfil geral das personagens que pretende criar. Ao encenar situações, ajuda-as a construir as relações entre personagens e a experienciar as emoções necessárias para os papéis.
No momento das filmagens, não existe um “set” criado apenas para aquele momento — os espaços já são familiares para quem os habita (ou não, como Copti mostrou numa cena de Ajami, em que duas personagens entram pela primeira vez numa casa, criando organicamente uma sensação de desconforto e formalidade). Da mesma forma, Copti não utiliza microfones nem iluminação artificial que possam tornar os atores demasiado conscientes da presença da câmara. Descreveu os seus produtos finais como tendo “0%” do diálogo originalmente escrito no guião, embora a estrutura da história se mantenha fiel ao que tinha inicialmente planeado.
Ao trabalhar com tempo, sem julgamento ou expectativas, Copti cria um espaço seguro para que os não-atores possam “viver” plenamente as suas personagens. Ao compreenderem quem são essas personagens, conseguem agir naturalmente para a câmara. É assim que se refuta o paradoxo da ficção, tornando possível criar algo “real”.
- Alexandra Rongione