Training Ground
Filipe Carvalho na sua masterclass: “Opening Titles and Beyond: Visual Language in Motion”
24.06.2025

Filipe Carvalho integrou o programa do FEST 2025 a 24 de junho com a Training Ground Masterclass “Opening Titles and Beyond: Visual Language in Motion”. A sessão centrou-se em como Carvalho articula formas, cores e conceitos para criar genéricos apelativos e envolventes, com vários exemplos retirados do seu portefólio, galardoado com um Emmy.

O percurso e o trabalho de Carvalho enquanto designer são centrais para a sua abordagem ao design e para a sua forma de olhar o mundo. Descrevendo-se como alguém com origens na classe trabalhadora e “criado a ouvir Kurt Cobain, Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam”, Carvalho sublinhou repetidamente a importância das suas raízes ao longo da sessão. Disse que havia sido “moldado pela música que ouvia e pelos filmes que via”. Ecos das imagens e paisagens sonoras dos anos 90 que guarda na memória, ora contidas, ora explosivas, refletem-se na forma como controla o ritmo, tensão e combina as imagens.

A sessão contou com conselhos úteis para quem pretende entrar no setor. Carvalho tem colaborado com um número cada vez maior de empresas e fundou também o seu próprio estúdio criativo, o Foreign Affairs.

Antes de se afirmar como um renomado artista de genéricos, Carvalho trabalhou como web designer. Após sete anos nesta área, sentiu que precisava de “uma tela maior, uma tela melhor” para dar resposta à dimensão cinematográfica da sua visão artística. Então, aos 24 anos, em 2009, decidiu entrar na indústria do cinema e da televisão.

Depois de um período inicial de aprendizagem e aperfeiçoamento, Carvalho preparou um portfólio de “projetos fantasma”, ou seja, trabalhos desenvolvidos por iniciativa própria (que não haviam sido pedidos por clientes). Quando se sentiu satisfeito com o resultado, decidiu arriscar e enviou o seu trabalho por email para um estúdio norte-americano cujo trabalho admirava. Afinal, “o pior que poderia acontecer era não acontecer nada”. Duas semanas depois, recebeu um convite para colaborar com eles.

A partir daí, a sua carreira com estúdios norte-americanos em cidades como Chicago, Nova Iorque e Seattle foi ganhando impulso. Ainda assim, a porta dos grandes estúdios de Hollywood permanecia fechada. Então, voltou a recorrer à mesma estratégia: desenvolveu um novo “projeto fantasma”. O resultado foi uma sequência completa de genéricos para um filme fictício intitulado The Architect. Carvalho enviou o projeto para a Blur Studio, sediada em Los Angeles e, mais uma vez, acabou por receber resposta.

O designer sublinhou que partilhar o trabalho — publicá-lo, falar sobre ele, mostrá-lo — é a melhor forma de chegar a potenciais clientes ou colaboradores. Os seus exemplos evidenciaram a força das metáforas visuais e a importância de ter uma ideia clara para cada projeto. Disse ainda que ideias originais são a base de um trabalho de qualidade e o que transforma as imagens num conceito coerente.

O percurso de Carvalho é um testemunho da importância de arriscar. A sua alquimia singular combina princípios de design com influências da arquitetura, do design gráfico e da fotografia, aliada à convicção de que o trabalho tem de ser significativo para quem o cria para poder ser significativo para os outros. Neste sentido, foi com especial entusiasmo que Carvalho terminou a sua masterclass ao anunciar — pela primeira vez em público — que está a realizar uma série documental, chamada de Viewfinder, juntamente com o documentarista português Jorge Pelicano, sobre a vida de fotógrafos e correspondentes de guerra. O FEST mal pode esperar para acompanhar esta próxima etapa na carreira de Carvalho.

- Alexandra Rongione