O FEST teve o prazer de receber o renomado montador Chris King para a sua masterclass “Truth and Structure: The Editor’s Role in Documentary”, no dia 25 de junho. As obras de King têm sido reconhecidas com diversos prémios, incluindo um BAFTA por Senna (2010), um Emmy por Wasted! The Story of Food Waste (2017), para além de uma série de outras distinções e nomeações.
A masterclass foi apresentada sob a forma de um “diário de montagem”, que descrevia o processo da produção de filmes, com recurso a exemplos ilustrativos retirados de alguns dos projetos mais conhecidos do montador.
Embora King refira que grande parte do seu tempo na escola de cinema se dedicava a um número excessivo de disciplinas de teoria e história do cinema, reconhece também que conceitos como a estrutura dramática moldaram a sua abordagem à montagem.
O “diário de montagem” de King mostra que a estrutura dramática não é aplicada ao processo de montagem desde o início. Primeiro, a história e a identidade do filme vão surgindo durante este processo e só depois é que formas como a estrutura de três ou cinco atos são usadas para organizar e afinar o material.
Um dos pontos mais interessantes partilhados por King na sua masterclass foi o facto de que nenhum dos documentários da trilogia feita em colaboração com o realizador Asif Kapadia — composta por Senna (2010), Amy (2015) e Maradona (2019) — teve um guião. Todos estes filmes, centrados em figuras públicas e na sua relação com os meios de comunicação social, foram construídos a partir de material de arquivo. Referiu que a análise de horas e horas de filmagens exigiu tempo e uma dedicação considerável, mas King sublinhou que é ao rever todo o material disponível e ao identificar as suas “pérolas” que a narrativa do filme acaba por emergir.
King explicou que cada um destes filmes passou por um longo processo de aperfeiçoamento até chegar à verdadeira identidade dos protagonistas. Para construir a narrativa, recorreu a elementos da literatura clássica que orientaram a montagem, como a falha trágica do protagonista e a forma como esta conduz às suas consequências em Senna. Destacou, ainda, a influência de abordagens não ocidentais, como o cinema de Bollywood, no uso da música como recurso narrativo em Amy.
Para além do seu conhecimento sobre a estrutura do documentário, King utiliza vários elementos cinematográficos de modo a reforçar a narrativa, não apenas a imagem. Neste sentido, elementos como o som, a música e técnicas de edição podem ser utilizados para complementar e enriquecer as histórias. É esta combinação cuidadosa de técnicas narrativas tradicionais com elementos cinematográficos que torna a montagem uma parte integrante do processo de produção de filmes.
- Alexandra Rongione